
Dia 2 — O jet lag acorda
cedo, mas o CHARMIE também
O dia começou às 3:30 da manhã, porque aparentemente o
jet lag decidiu marcar uma reunião comigo. Sem aviso,
sem agenda e sem possibilidade de reagendamento.
Às 6:50 já estávamos na fila do registo, sem
pequeno-almoço, mas com uma lógica imbatível: quanto mais cedo entrássemos,
mais cedo começávamos a trabalhar. E resultou. Fomos mesmo os primeiros a
entrar no espaço da competição. Tão primeiros que quase parecia que íamos abrir
o pavilhão.
A recompensa? Uma mesa mesmo junto à casa do @Home.
Localização premium. Vista privilegiada. Renda provavelmente caríssima, se isto
fosse imobiliário.

A entrada triunfal da equipa
Começámos logo a trabalhar, mas sempre com um olho nos
resultados do Mundial de Futebol. Afinal, o LAR também tem uma equipa de
futebol robótico e nunca se sabe quando uma estratégia humana pode ser adaptada
para robôs. Ainda vimos os nossos amigos alemães a acompanhar o jogo e a
desesperar. Pouco depois, foi a vez dos amigos holandeses. O futebol, tal como
a robótica, também tem bugs difíceis de resolver.

O Jogo da Holanda – um a trabalhar... (isto faz-me lembrar qualquer
coisa)
Entretanto, a equipa montou um centro de carregamento
de baterias em formato "Faça Você Mesmo". Uma espécie de obra de
engenharia de sobrevivência, feita com cabos, carregadores, fé e alguma
preocupação com a proteção civil. Toda a gente que passava olhava, admirava… e
queria um igual. Estamos a ponderar vender o projeto em kit: “LAR Energy Solutions — carregamos
tudo, até a esperança”.

Centro de carregamento “Carregamos tudo...”
Também tivemos a inevitável reunião de regras com
todos os team leaders. É uma chatice, sim. Mas é uma chatice necessária. Uma
espécie de vacina: ninguém gosta, mas evita males maiores.
O resto do dia foi intenso: dentro da casa, a
programar, a fazer testes, afinações, mais testes, mais programação e o CHARMIE
no centro de tudo, como quem diz: “Eu até fazia isto tudo sozinho, mas vocês
insistem em ajudar.”

Quando os humanos acham que sabem mais que os robôs
Fizemos imensos vídeos para criar datasets
de objetos, e um dos elementos da equipa assumiu temporariamente o papel de
robô, com uma câmara no braço. Foi provavelmente o primeiro caso do dia em que
um humano foi usado para simular um robô, em vez do contrário. A ciência
agradece. A Inês talvez menos.

Quando os humanos têm de fazer de robôs...
Estivemos também a ensinar um sistema de Inteligência
Artificial a reconhecer cerca de 40 objetos existentes numa cozinha.
Normalmente, isto é uma tarefa muito demorada. Mas como a necessidade aguça o
engenho — e a falta de sono ajuda ainda mais — criámos software que automatiza
grande parte do processo. Resultado: em cerca de uma hora criámos o dataset e noutra hora treinámos a rede. Quase parecia
fácil. A palavra importante aqui é “parecia”.

Alguma da tralha da cozinha...
E houve um grande momento: o CHARMIE já abre as portas
da casa. Ainda há poucas equipas que conseguem fazer isto, por isso foi um
daqueles momentos em que quase apetece bater palmas…

Abre-te, Sésamo... versão robótica.
Durante o dia reencontrámos também muitos amigos de
longa data que só chegaram hoje. O RoboCup é isto: uma competição mundial de
robótica, mas também uma reunião anual de pessoas que quase não dormem,
programam muito e acham perfeitamente normal passar dias inteiros a discutir
sensores, motores e portas que se abrem, mas que acima de tudo nunca desistem
doe um bom desafio.
Tive ainda a honra de receber das mãos do presidente
da RoboCup uma placa de agradecimento pela minha dedicação ao RoboCup ao longo
de tantos anos. Foi um momento muito especial e emotivo, daqueles que nos fazem
parar dois segundos… antes de voltar imediatamente ao robô, porque o tempo não
perdoa.

Reconhecimento de muito trabalho e Ciência
Jantámos a correr, porque o pavilhão fecha às 23:00 e
cada minuto conta. Voltámos rapidamente ao trabalho, claro. Mas dez minutos
antes das 23:00 começaram a apagar as luzes, a tocar apitos e a aparecer
pessoas com lanternas a piscar vermelho/azul como se fossem polícias, para nos
expulsar do evento. Não por maldade, mas porque aparentemente “fechar”
significa mesmo fechar. Estranho conceito.
Lá tivemos de sair. Mas sair do pavilhão não significa
parar de trabalhar. Subimos para o último piso do hotel, onde tem uma sala de
24 horas, e acabámos a catalogação das imagens, fizemos o ponto da situação e
definimos o que ainda havia para fazer.
Pelas 2:00 da manhã, finalmente fomos para a cama. Nós
fomos. O computador com a placa gráfica mais rápida ficou acordado toda a noite
a treinar a rede. Mas "bufou" toda a noite.
No fundo, foi mais um dia normal no RoboCup: pouco
sono, muita programação, muitos cabos, muita aprendizagem, algumas emoções
fortes e um robô que, devagarinho, vai mostrando ao mundo aquilo que sabe
fazer.
Esta equipa é um orgulho para o Laboratório, para a Universidade do Minho,
para Guimarães, e para Portugal.

Liga do RoboCup@home
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