Dia 3 — Entre redes neuronais, robôs gigantes e uma internet em sofrimento

 

Hoje acordámos com a confirmação de uma teoria científica importante: o cansaço vence o barulho.

 

O computador passou a noite inteira a treinar uma rede neuronal (no quarto). Ventoinhas no máximo, processador em sofrimento, GPU a pedir férias... e eu? Dormi como se estivesse numa biblioteca. Afinal, quando o nível de cansaço atinge determinados valores, nem um motor de avião serve de despertador. Aliás... o despertador verdadeiro é que teve de trabalhar horas extra para me arrancar da cama às 7:00AM.

Pequeno-almoço? Sim. Saboreado? Nem por isso. Foi mais uma prova olímpica de ingestão rápida de comida para chegar ao RoboCup o mais cedo possível.

A rede neuronal treinada durante toda a noite foi imediatamente testada. Resultado? Melhorou... mas continua a querer mais imagens. As redes neuronais são como alguns alunos: por muito que se lhes dê, acham sempre que precisam de mais exemplos.

Entretanto tive a oportunidade de ver um robô humanoide coreano enorme.

 


Humanoide da HERoEHS

 


Minutos depois voltei a encontrá-lo... sentado numa cadeira de rodas. Foi provavelmente a primeira vez na vida que pensei: "Espero sinceramente que seja o robô a testar a cadeira... e não a cadeira a precisar do robô."

 

 


O que é que ajuda o quê ?

 

 

Entretanto, uma equipa japonesa veio elogiar a solução mecânica do nosso braço robótico, e quer fazer igual. É precisamente este espírito de partilha que faz do RoboCup muito mais do que uma competição. Todos aprendem com todos... e ninguém regressa a casa com exatamente as mesmas ideias que trouxe.

 

 


Interesse Japonês

 

 

A internet, essa, continua fiel às tradições do RoboCup. Hoje contei 482 redes Wi-Fi só na banda dos 5 GHz. Sim... quatrocentas e oitenta e duas.

Mas também, o que é que se pode esperar? Estamos a falar de cerca de 2500 participantes, praticamente todos com um portátil e um telemóvel, centenas de robôs, câmaras, sensores, drones, pontos de acesso improvisados e sabe-se lá mais quantos aparelhos a gritar "eu também quero largura de banda!".

O resultado é uma rede Wi-Fi muito... emocional. Às vezes existe. Às vezes deixa de existir. E, nas melhores alturas, reaparece durante cinco segundos só para nos dar esperança antes de desaparecer outra vez. Já nem sabemos se estamos ligados ao Wi-Fi ou apenas otimistas.

Se amanhã, com o início das provas, aparecer a mensagem "Sem ligação à Internet", desconfio que não será um erro. Será apenas a forma mais educada que a rede encontrou para dizer: "Voltem a tentar quando metade dos robôs for dormir."

 

 


Queres internet ?

 

 

Mas hoje começámos finalmente os testes da prova da máquina de lavar roupa com o CHARMIE. Nunca pensei que chegássemos ao ponto de passar horas a ensinar um robô a fazer uma tarefa que nós próprios tentamos evitar sempre que possível.

 

 


Depois não culpem os robôs. Fomos nós que começamos...

 

 

Como se não bastasse termos computadores a trabalhar aqui na Coreia, decidimos recrutar reforços internacionais. O meu computador lá em casa, em Portugal, entrou oficialmente ao serviço. Está, neste momento, a treinar mais uma rede neuronal... a cerca de 10 000 quilómetros de distância. A estimativa? Apenas 31 horas de processamento. Nada de especial. É quase um sprint.

 

 


Esta GPU já pediu asilo político.

 

 

Depois chegou um dos momentos importantes do dia: a "Inspection". O CHARMIE lá fez a sua prova e passou na inspeção sem qualquer problema. Oficialmente, foi dado como apto para competir. Respirámos todos um bocadinho melhor.

 

 


Inspection

 

 

Ao final da tarde, por motivos profissionais, fui jantar com colegas Trustees de vários países, incluindo o Ministro da Ciência do Irão. Só no RoboCup é que se pode passar de discutir redes neuronais para conversar sobre ciência internacional durante o jantar.

Como se o dia ainda tivesse poucas horas, terminou com uma reunião dos Trustees do RoboCup Asia Pacific. Porque dormir é importante... mas aparentemente não tanto.

 

E quando parecia que finalmente o dia ia acabar...

À meia-noite subi ao 22.º andar do hotel para me juntar novamente aos alunos. Lá estavam eles, ainda a trabalhar, a preparar as provas de amanhã. Ver este nível de dedicação dá gosto. Encontrar estudantes com esta vontade, este empenho e esta capacidade de continuar quando todos já só pensam em dormir... infelizmente, não é algo que se veja todos os dias.

 

 


Alguns contam ovelhas. Nós contamos linhas de código

 

 

 

Amanhã começam as provas.

A internet provavelmente vai colapsar.

As redes neuronais vão continuar a pedir mais imagens.

Os computadores vão continuar a aquecer. E nós... também.

 

Muito obrigado a esta equipa de luxo.

 

 

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