Dia 4 — Quando o cansaço pesa... mas o CHARMIE pesa ainda mais na classificação

 

O cansaço já começa a fazer parte da equipa. Entre a viagem longa, o jet lag, dias de 18 horas de trabalho e a pequena responsabilidade de arbitrar e participar uma liga internacional, começa a haver momentos em que já nem sabemos se estamos a sonhar ou apenas a compilar mais uma rede neuronal.

 

Há quem diga que temos uma sorte enorme por viajar tanto. E é verdade... se o conceito de férias incluir dormir pouco, correr muito, resolver problemas atrás de problemas e passar o dia inteiro dentro de um pavilhão cheio de robôs. Digamos apenas que isto está ligeiramente mais próximo de um Ironman tecnológico do que de turismo.

 

O dia começou logo em velocidade... ou melhor, teria começado, se não tivéssemos ficado presos no elevador atrás do robô do hotel. Descobrimos que até um robô consegue ser irritantemente lento quando estamos atrasados.

 



Quando o Wi-Fi é rápido, mas o elevador nem por isso.

 

O pequeno-almoço foi praticamente injetado diretamente na corrente sanguínea, porque havia uma corrida contra o relógio até ao RoboCup.

Mal chegámos, um dos primeiros desafios do dia foi arbitrar uma das arenas da competição. Ainda nem o cérebro tinha terminado o arranque completo e já havia equipas para avaliar, regras para verificar e robôs para observar.

Entretanto chegou mais um daqueles momentos que fazem qualquer investigador sorrir. Testámos uma nova rede neuronal para reconhecimento de objetos... e funcionou! Há poucas alegrias comparáveis àquela sensação de ver um modelo finalmente fazer exatamente aquilo que devia ter feito... há três dias.

Mas o prémio para momento mais memorável do dia não foi nosso.

Um participante estava calmamente sentado no chão a unir dois fios. Uma tarefa aparentemente banal, que todos fazemos dezenas de vezes. O pequeno detalhe é que escolheu precisamente os dois fios que nunca deveriam ser ligados.

Primeiro apareceu um clarão gigantesco. Cerca de 15 milissegundos depois ouviu-se um estrondo que fez olhar meio pavilhão, incluindo quem estava a cinco metros de distância como nós.

O autor da proeza ficou completamente vermelho de vergonha. Mas, numa tentativa quase heroica de fingir que nada tinha acontecido, limitou-se a pegar no fio — agora completamente preto — e... soprou-o.

O silêncio durou cerca de meio segundo. Depois veio uma gargalhada geral.



Foto do flash do “estouro”

 

Entretanto começaram as provas da manhã... e o CHARMIE decidiu que era um excelente dia para dar trabalho aos favoritos.

·      No desafio Human Robot Interface, alcançou 455 pontos, garantindo o 2.º lugar.

·      Logo a seguir, no Pick & Place, fez 945 pontos e conquistou o 1.º lugar.

Nos últimos anos a história costuma repetir-se: ou vence a equipa japonesa TidyBoy, ou a equipa alemã NimbRo.

Este ano... temos a sensação de que eles começaram finalmente a olhar para o CHARMIE pelo retrovisor.

 

Ao almoço não houve grandes luxos. Foi uma refeição rápida, sentados no chão, de pauzinhos na mão e comida chinesa à frente. Honestamente, só faltava uma manta portuguesa para o cenário ficar completo.


Comer no chão aproxima-nos da cultura local...

 

Depois decorreu a cerimónia de abertura e até começou em grande estilo, com uma impressionante dança às escuras usando fatos cheios de LEDs.

Mas depois chegou a parte tradicional de qualquer cerimónia oficial: muitos discursos e ainda por cima em coreano. Digamos apenas que treinámos bastante a nossa capacidade de sorrir e acenar.

 


O espetáculo abriu a cerimónia. Os discursos em Coreano fecharam-nos os olhos.

 

 

Mais ao final da tarde vieram mais duas provas.

·      No GPSR, o CHARMIE conquistou 540 pontos, alcançando novamente o 2.º lugar.

·      Na prova de Laundry, o CHARMIE fez apenas 15 pontos (mesmo assim conseguir o 3º lugar). Estamos seriamente a considerar inscrevê-lo num curso intensivo dado pelas nossas avós. Elas resolvem um cesto de roupa em menos tempo do que um robô calcula a trajetória.

 


Primeiro passo: abrir a porta. Parece fácil...

 

 

E quando o dia parecia terminado, aconteceu um daqueles momentos que lembram porque esta competição é muito mais do que uma disputa entre robôs.

A equipa japonesa dos TidyBoy aproximou-se da nossa mesa e ofereceu uma pequena lembrança a cada elemento da equipa: um bonito separador de livros tradicional japonês.

Um gesto simples, inesperado e cheio de significado.

É precisamente este espírito de amizade entre equipas, mesmo quando competimos diretamente umas com as outras, que torna o RoboCup um evento tão especial.

 


A melhor surpresa do dia não deu pontos... mas valeu muito.

 

 

E para quem quiser acompanhar tudo em direto, o vídeo streaming oficial do RoboCup está disponível em:

https://www.twitch.tv/robocupofficial

 

Agora... se nos dão licença, amanhã há outro dia. E, pelo andar da coisa, outro pequeno-almoço para injetar.

 

 

Estes alunos são únicos. Pelo seu conhecimento científico, pela sua desenvoltura técnica, pela sua resistência, pelo sua resiliência, pela sua capacidade de trabalho, por tudo isto e muito mais, são mesmo únicos.

 

 

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