
Dia 5 — Um ollho na Seleção
Nacional, outro no CHARMIE
Gostar da Seleção é isto: acordar às 6:00 da manhã
para ver Portugal jogar.
Gostar da robótica é isto: acordar às 6:00 da manhã
para ver Portugal jogar... e depois ir trabalhar 18 horas num pavilhão cheio de
robôs.
Claro que nós fizemos as duas coisas, porque
aparentemente dormir continua a ser uma funcionalidade que a equipa ainda não
conseguiu implementar.
O pequeno-almoço voltou a ser ingerido pelo método já
tradicional desta semana: injeção direta. Não houve tempo para mastigar com
dignidade, porque o RoboCup esperava por nós e o CHARMIE também tinha contas a
ajustar com o dia anterior.
Chegámos ao pavilhão e começámos logo a trabalhar no
que tinha corrido menos bem. Mas foi um trabalho muito especial: um olho no
CHARMIE, outro no jogo de Portugal. A coordenação ocular da equipa estava mais
avançada do que algumas redes neuronais.

Portugal ganhou. O portátil sobreviveu. Nós nem por isso.
A certa altura, o nosso stand transformou-se na
"Casa de Portugal" do RoboCup. Os portugueses da equipa de Lisboa
vieram juntar-se a nós para ver o jogo, porque já sabem que, aconteça o que
acontecer, a nossa equipa acaba sempre por descobrir um daqueles links...
digamos... " cientificamente duvidosos", que aparecem
milagrosamente quando a Seleção joga. A qualidade da imagem variava entre 144p
e "acho que isso é o Ronaldo", mas ninguém se queixou. Às vezes
bloqueia, às vezes anda para trás, às vezes parece filmado por uma torradeira... mas funciona. Quando joga Portugal, até os píxeis vestem a camisola.

A mesa era do CHARMIE, mas durante 90 minutos foi consulado português.
A partir dos 60 minutos de jogo, chegou a parte mais
dolorosa: foi necessário arbitrar provas da liga do @home e foi preciso ir para
a casa do CHARMIE. E sim, isso significou deixar de ver o jogo. Foi duro. Muito
duro.
Continuámos a ouvir ao longe os gritos dos golos, dos
quase golos, dos sustos e dos sofrimentos. Basicamente, foi um parto difícil... mas com bandeiras no nosso stand, VAR emocional e robôs
à mistura.
Mas enquanto Portugal nos tratava da tensão arterial,
a equipa continuava a trabalhar afincadamente. Houve testes, correções,
afinações, redes sociais para atualizar e ainda notas de alunos para enviar
para Portugal, porque tudo o que fazemos no RoboCup é sempre “além” do nosso
trabalho normal.
Ou seja, enquanto uns acham que estamos em turismo,
nós estamos a tentar perceber se é pior um bug no robô, um email urgente ou um
jogo de Portugal decidido em sofrimento.
Depois fomos rapidamente visitar o RoboCup Junior, onde encontrámos alguns amigos. Também encontrámos
o Ivica, o nosso grande amigo croata. Ele estava certamente triste com o jogo
de há uns minutos. Nós, por motivos puramente desportivos e absolutamente
patrióticos, estávamos bastante contentes.

Com o Ivica: amizade luso-croata, agora com ligeira vantagem no marcador.
Visitámos ainda o stand da MathWorks,
onde estava a nossa amiga Ascension Coutry (grande fã da RoboParty), porque mesmo no meio da
competição há sempre tempo para reencontrar pessoas que fazem parte desta
grande comunidade.
Quanto ao CHARMIE, hoje resolveu acordar mal disposto.
Na primeira prova da manhã, o PC crashou. Ninguém
percebeu porquê. Talvez tenha sido solidariedade com o nosso cansaço.
Na segunda prova da manhã, decidimos não participar,
para preparar melhor a terceira prova.
Nem vou comentar o almoço que tivemos... foi tão leve
que o prato ainda deve estar com fome.
Depois veio a terceira prova, e o CHARMIE fez uma
recuperação muito boa: passou dos 610 para 809 pontos.
Na quarta prova o CHARMIE conseguiu abrir a porta da máquina
da roupa, o que nos valeu mais 300 pontos. Pode parecer pouco, mas quem já
tentou convencer um robô a tirar roupa de uma máquina sabe que isto devia
contar como vitória doméstica internacional.
Mesmo assim, no final do dia, descemos para o 3.º
lugar, porque as outras equipas também progrediram bastante.
Ou seja: nós melhorámos, o CHARMIE melhorou, mas os
outros decidiram melhorar também. Uma falta de consideração competitiva.

CHARMIE: hoje acordou com cara de quem sabe que tem pontos para fazer.
Pelo meio, vimos humanoides a tentar fazer provas do
@Home. E atenção: não se admirem se, daqui a uns tempos, começarem a aparecer
versões comerciais destes robôs. Um dia estamos a vê-los em competição, no dia
seguinte estão em casa a tentar abrir a máquina da roupa. Com sorte, fazem mais
do que 15 pontos.

Humanoide no @Home: quando até os robôs começam a tentar arrumar a casa.
Às 19:30 fomos ao hotel engolir qualquer coisa para
nos manter vivos. Nem se pode chamar jantar. Foi mais uma operação de
manutenção básica da equipa. E fomos em turnos, para que o CHARMIE nunca
estivesse sozinho, não fosse ele descansar...
Quem anda nestas competições há décadas já aprendeu uma
regra simples: um minuto sem trabalhar é um minuto perdido.
Durante tudo isto, continuamos todos com as mesmas
t-shirts, cheias de nomes de patrocinadores, vestidas com enorme orgulho.
Afinal, cada logótipo representa alguém que acreditou
no projeto muito antes de começarem os aplausos.
E quando os dias são longos, o cansaço pesa, os
computadores crasham, os pontos oscilam e os almoços são ovo com arroz... é bom
olhar para essas t-shirts e lembrar que não estamos aqui sozinhos.
Estamos aqui como equipa.

As t-shirts são iguais, o orgulho também. O cheiro já é assunto
confidencial.
Cansados, sim.
Com fome, muitas vezes.
Com sono, sempre.
Mas ainda de pé.
E amanhã há mais.
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