
Dia 7 — Pequeno-almoço às seis da
tarde... e o CHARMIE tornou-se Vice-Campeão do Mundo
A noite
foi... intensa. O computador passou horas a bufar, a processar redes neuronais,
datasets e sabe-se lá mais o quê. Parecia um avião
prestes a levantar voo dentro do quarto do hotel. Dormir? Dormimos... mais ou
menos. Mas, quando se trata do CHARMIE, há prioridades. Se o computador tinha
de trabalhar durante a noite, então que trabalhasse. Nós logo recuperávamos...
um dia.
Às 7:00
da manhã já estávamos no RoboCup. E, para manter a tradição desta semana, fomos
para a competição... sem pequeno-almoço. A certa altura começámos a suspeitar
que a organização tinha criado uma nova prova: "Survive Until Lunch
Without Eating."
Estávamos confiantes. Já éramos especialistas. Enquanto uns afinavam os últimos
detalhes, o grupo dos datasets fez as derradeiras
validações das redes de reconhecimento de objetos. Porque, aparentemente, antes
de uma final mundial ainda há sempre tempo para treinar mais um bocadinho uma
inteligência artificial.

A ensinar o CHARMIE a distinguir uma banana de um pato
Mas como
um RoboCup sem imprevistos não seria RoboCup... aconteceu. O hub USB onde estavam ligadas as câmaras do CHARMIE decidiu
produzir um efeito especial de última hora: um curto-circuito. Resultado? A
câmara do pulso morreu heroicamente em serviço e teve de ser substituída em contra relógio. Nada como desmontar uma parte do robô
minutos antes da final para aquecer os dedos.
Às 11
horas começou finalmente a grande final. Seis equipas. Seis provas. Meses (ou
anos) de trabalho resumidos a alguns minutos de prova. Curiosamente, quem
estava mais calmo era... o CHARMIE.
Enquanto
os humanos faziam contas, reviam o código mentalmente, imaginavam todos os
cenários possíveis e respiravam a uma frequência pouco saudável, o CHARMIE
limitou-se a fazer aquilo para que foi criado. Entrou em campo, trabalhou e
respondeu praticamente a tudo com uma serenidade invejável. Conclusão: talvez o
robô devesse começar a dar formação sobre gestão de stress aos seus próprios
criadores.
Terminadas
as provas, chegou talvez o momento mais difícil de todo o RoboCup: esperar pelo
resultado. O júri reuniu-se para validar cuidadosamente todas as pontuações.
Foram apenas trinta minutos... que, por alguma razão desconhecida da Física,
parecia ter sido aproximadamente três semanas.

30 minutos... segundo o relógio. Três semanas... segundo nós
Entretanto,
foi tirada a tradicional fotografia de grupo, com todos os robôs cuidadosamente
colocados numa das casa... todos a monte. Todos muito
compostos, muito sérios... sem deixarem transparecer que os respetivos donos
estavam por dentro completamente destruídos pelos nervos.

Os verdadeiros protagonistas do RoboCup
E então
chegou o momento. A classificação foi lida pelo presidente do júri, do 6º para
o 1º lugar.
E o Charmie ficou em 2.º lugar. Vice-Campeões do Mundo.
Durante
alguns segundos foi difícil acreditar. Das seis equipas finalistas, quatro
delas utilizam plataformas robóticas comerciais de elevado custo e ainda
dispõem de robôs suplentes, permitindo desenvolver, testar e preparar soluções
em paralelo. O CHARMIE, pelo contrário, nasceu inteiramente no Laboratório de
Automação e Robótica da Universidade do Minho. Cada parafuso, cada peça, cada
linha de código e cada erro corrigido fazem parte da sua história. E agora... era Vice-Campeão do Mundo.
Seguiu-se
aquilo que talvez seja uma das coisas mais bonitas do RoboCup. As equipas
deixaram de ser adversárias e voltaram a ser colegas. Conversámos sobre
algoritmos, sensores, problemas, soluções, ideias futuras e possíveis
colaborações. Porque, no fundo, esta competição não serve apenas para descobrir
quem ganha. Serve para fazer avançar a robótica mundial. E percebe-se
rapidamente que esta comunidade é, acima de tudo, uma enorme família
científica.

A ciência cresce muito mais quando é partilhada
Pelo meio
ainda conseguimos garantir mais uma t-shirt oficial do evento, que irá
juntar-se à coleção. Ao fim de 26 participações no RoboCup, já começa a ser
preciso pensar numa divisão nova lá no laboratório só para guardar recordações.

26 RoboCups. 26 histórias para contar
Ainda
houve tempo para assistir a uma demonstração de futebol humanoide 11 contra 11
com robôs Booster K1. Impressionante. Há poucos anos,
isto seria ficção científica. Para muitas pessoas, ainda hoje é ficção
científica.

Daqui a uns anos já ninguém vai dizer "isto parece ficção
científica"
Depois
chegou a cerimónia de entrega dos troféus. Subimos ao palco para receber o
prémio de Vice-Campeões do Mundo. E claro... após receber o troféu o equipa fez
aquilo que já se tornou uma das suas marcas registadas: gritou
"SIIIIIIUUUUUUUUUUUU!" O famoso grito do Cristiano Ronaldo. A reação
do público foi imediata. Aplaudiram, riram-se... e pediram outra vez. E o
equipa voltou a responder. O CHARIME também o fazia quando fazia algo muito bem
durante as provas.

Valeu cada noite mal dormida. O "SIUUUU" ouviu-se... duas vezes!
Quando
tudo terminou, a organização ofereceu finalmente comida a todos os
participantes. Eram cerca das seis da tarde. Foi oficialmente... o nosso
pequeno-almoço.

Primeira refeição do dia. Só demorou 11 horas.
Logo a
seguir começou a festa final. DJ, luzes, música, dança, abraços, fotografias e
centenas de pessoas a celebrar mais uma edição do RoboCup. Curiosamente,
naquele momento ninguém parecia cansado. Depois de uma semana a dormir pouco, a
correr de um lado para o outro e a resolver problemas atrás de problemas, ainda
havia energia para dançar como se a competição tivesse começado naquele
instante.

Depois de uma semana sem dormir... descobrimos energia escondida
Só mais
tarde, já no hotel, é que o corpo resolveu apresentar a conta. Caímos todos na
cama completamente estourados. Mas desta vez não havia preocupações com código,
sensores ou câmaras, nem havia computadores a "bufar". Havia apenas
um enorme sentimento de missão cumprida
Porque
este segundo lugar não nasceu numa manhã de competição. Nem sequer nasceu este
ano. Foi construído ao longo de muitos anos, com milhares de horas de trabalho,
fins de semana passados no laboratório, noites mal dormidas, experiências que
falharam, problemas que pareciam impossíveis de resolver e uma equipa que nunca
deixou de acreditar. É fácil admirar um troféu. O difícil é imaginar tudo o que
ficou para trás até ele existir.
Se este
RoboCup nos ensinou alguma coisa, é que os maiores resultados raramente
pertencem a quem tem mais recursos. Pertencem a quem insiste mais uma vez,
trabalha mais um dia ou uma noite, aprende com cada erro e nunca desiste quando
o caminho parece demasiado difícil. Os sonhos não se medem pelo orçamento nem
pelo tamanho do laboratório. Medem-se pela paixão de quem todos os dias decide
continuar a construí-los.
E foi
exatamente isso que o CHARMIE nos voltou a ensinar.
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